pequenas mortes

Postado em: agosto 24, 2010 por Marcio Carvalho em

"Quando um homem mente, ele mata uma parte do mundo."

E tudo o que me contaste como sendo teu é apenas a ilusão que criastes para fazer com que o nosso pequeno mundo continuasse existindo.

Cada pilar que colocamos era feito de barro, cada reino que conquistávamos eram de fantasia.

Agora que tudo chega a um fim triste e banal, olho para você e me vejo imaginando o que poderia ter sido se apenas ousássemos.

A lua me trouxe você. E com você, veio a dor. E a vergonha de saber que mesmo essa dor é bem vinda, pois me aproxima de você.

Sinto que já vivi demais.

Maldito é esse coração que não bombeia sangue, mas desejos.

Porque sei que no momento em que conseguir o que desejo, vai ser pouco e vou querer mais.

Porque sei que o teu gosto é bom.

em pedaços

Postado em: agosto 18, 2010 por Marcio Carvalho em

pedaços de mim

pequenos encontros,
um abraço, um beijo.
um sorriso de despedida,
uma lágrima.

a paisagem que passa na janela do carro,
a lua, navegando o céu cheio de nuvens.

o cabelo ao vento,
o frio do inverno.

um céu cinza,
um olhar cinza.

pernas que se tocam por baixo da mesa,
um olhar demorado.

meu coração está em pedaços.

Do amor

Postado em: agosto 14, 2010 por Marcio Carvalho em

Quando o mundo ainda era jovem e somente uma tribo caminhava sobre a terra, os antigos deuses entregaram um presente aos homens. Uma jóia cor de sangue, um rubi de sonhos. E ao sonhar, os homens estariam nos braços dos deuses, unidos a toda a criação, ligados a todas as outras criaturas do mundo, protegidos, cuidados. E ninguém se sentiria sozinho. Essa jóia chamava-se Amor.


E foi dito aos homens que guardassem a pedra, pois enquanto elas existissem, o coração do homem nunca se afastaria da deidade. O chefe da tribo, Adh-an, tinha dois filhos, Kaihn e Avehl. Os irmãos gêmeos eram os mais rápidos e mais fortes de toda a tribo e a eles Adh-an entregou a tarefa de vigiar o Amor.

E os irmãos revezavam-se na tarefa. Kaihn ficava junto à jóia durante os dias e Avehl durante as noites. E no raiar do dia e no cair da noite os dois revezavam-se. E todos os homens ao dormir, sonhavam com o Amor dos deuses.

Kaihn admirava o brilho da pedra sob a luz do sol. O toque suave e quente dos raios refletidos em sua pele eram como os de uma amante e enchia-lhe o coração e acolhia sua alma. Mas o dia sempre terminava, e ele havia de voltar para sua casa sozinho. E era para ele mais difícil afastar-se da jóia. Mas ao nascer da lua, Avehl sempre estava lá.

E o tempo passou. Os dias pareciam durar cada vez menos para Kaihn. Avehl parecia vir cada vez mais cedo. E as noites pareciam não acabar nunca. Kaihn já não sonhava o mesmo sonho que os outros. Seu sono era governado por um pesadelo onde ele estava sozinho no mundo. Não haviam mais deuses e não havia mais tribo, tampouco ele conseguia sentir o calor do Amor em seu peito. Tudo era dor, desespero e solidão.

Kaihn pedia aos deuses para sonhar o sonho do Amor novamente, mas recebia só o silêncio da noite. Ele não havia feito nada de errado, por que estava sendo castigado? Foi numa noite sem lua no céu que ele, sem conseguir mais dormir, percebeu o que acontecera. Era Avehl! Ele passava todas as noites protegendo o rubi. Ele era o único que poderia tocá-la, que poderia usá-la. De alguma maneira ele descobriu como controlar o Amor e ao fazer isso, privara Kaihn do sonho.

Avehl. Tinha quer ser ele.

E no silêncio da noite, enquanto os outros dormiam, Avehl tramava.

No dia seguinte, o sol levantou-se como sempre fazia. E as mulheres da tribo saíram para os campos, como sempre faziam. E os homens saíram para caçar, como sempre faziam. E Adh-an mandou chamar seus filhos, pois era outono e em breve seria preciso prepararem-se para o inverno. Mas Kaihn não estava em seus aposentos. O rei mandou então os homens buscarem Avehl, na sala da jóia. Talvez Kaihn estivesse lá com o irmão.

Os homens voltaram com o horror nos olhos. Avehl estava morto. Jogado no salão da jóia. Seu sangue tingia o salão de carmim. A pedra não estava em seu lugar. E Kaihn não podia ser encontrado.

Adh-an não entendeu o que lhe contaram, em princípio. Nenhum homem de sua tribo havia morrido no salão da jóia, antes. Nenhum homem havia sido assassinado. E a pedra dos sonhos estava perdida, junto com Kaihn. E Avehl havia sido morto.

O rei mandou que toda a tribo procurasse pela pedra e por seu filho.

Os homens foram em todas as direções. Mais tarde, sem ter sucesso, com a chegada da noite todos foram dormir. E enquanto dormiam, os homens tiveram sonhos com a morte, o esquecimento, o medo e a perda.

Dias se passaram e a cada noite, os sonhos se tornavam mais e mais selvagens. Agora, os homens pareciam cansados, pois tinham medo de dormir e acordarem loucos.

Uma manhã, no início do inverno, Kaihn foi encontrado. Os homens do rei haviam tido dificuldade em reconhecê-lo, pois Kaihn parecia mais um animal, vestido com restos de peles de feras mortas. Ele parecia ter perdido a sanidade e agarrava-se ao Amor com tal ferocidade que nenhum homem parecia conseguir tiro-la dele.

Adh-an foi ao encontro do filho. Entendendo finalmente que o assassino de Avehl havia sido o próprio irmão. Mas ao ver a figura do pai a sua frente, Kaihn gritou como um animal enlouquecido, e pulou no pescoço de Adh-an, matando-o com as próprias mãos. Ele então atacou o homem que segurava a pedra, arrancando-a de suas mãos.

Fugindo novamente, Kaihn foi em direção a um penhasco. Os homens da tribo o cercaram, mas ninguém se aproximava, com medo de que ele jogasse o rubi nas pedras mais abaixo.

E Kaihn chorou e lembrou-se de seu pai e do irmão. E lembrou-se dos sonhos com os deuses e com todos os animais e todos os homens juntos. E desejando sonhar novamente com o Amor, ele fechou os olhos, deixando-se cair.

Seu corpo encontrou as pedras no fundo do penhasco e Kaihn morreu. A jóia dos deuses partira-se em milhares de pedaços.

Os homens recolheram os pedaços, mas como a própria pedra, seus corações pareciam ter sido destruídos naquele dia.

Os homens voltaram para a tribo, onde fizeram um conselho para decidir o que seria feito, então. Os anciãos disseram que os deuses haviam sido desafiados com os atos de Kaihn e que a terra onde moravam havia sido amaldiçoada. Os mais fortes da tribo dividiram os pedaços do Amor entre si, nomeando-se lideres de seus clãs e esperançosos de continuarem ainda sonhando com a unidade com os deuses.

Muito tempo se passou, desde aquela época. A tribo disperso-se pelo mundo, fugindo do paraíso agora amaldiçoado. Os clãs se dividiram em tribos diferentes, que em pouco tempo eram tão numerosas quanto os cacos do rubi.

E desde então, os homens não sonham mais com os deuses. Cada um sonha com um pedaço da pedra, um pedaço da totalidade, incompleto e imperfeito. E desde então os homens sonham em encontrar o Amor completo novamente.





das coisas que fascinam

Postado em: por Marcio Carvalho em

O vento sopra forte. É dificil manter os olhos abertos. O dia está cinza e silencioso. Só o barulho do vento parece governar o mundo.


Eu caminho no parapeito. Braços abertos, as pessoas longe.

Gosto de estar aqui. Me faz pensar na vida. Nos limites, nas fragilidades.

E em como é fácil se deixar cair.

Eu olho o mundo inteiro daqui de cima. 

E por alguns instantes, tudo é menor que aquilo que posso sentir.

do que não se cala

Postado em: agosto 07, 2010 por Marcio Carvalho em

eles se olham... intensos... em silêncio. uma luz vermelha atravessa a cortina, deixando o quarto com uma atmosfera quase onírica.


ela o abraça, aperta-o forte contra si. ele a recebe em seus braços, num abraço carinhoso, mas cheio de muitos significados.

eles se beijam, calmamente. um beijo de reencontro, um beijo de primeira vez. 

ela gosta do beijo dele. é doce e intenso. tudo nele parece intenso, doce, proibido, desejado, antigo, sagrado.

ele sente com as mãos as curvas suaves do corpo dela. o beijo lhe traz lembranças que vão além da vida dele e desafia tempo e definições.

para os dois, tudo no mundo além desse quarto é baixo e sem sentido.

as roupas deixam os corpos, a vergonha deixa a alma, a culpa deixa o mundo.

eles são pele, sangue, alma e desejo.

ela se entrega. o corpo dele preenche seu corpo, os olhos dele preenchem sua alma.

ele a sente. os sussuros e gemidos dela são parte da música da criação.

eles se tocam, se conhecem, se descobrem, se reencontram. 

os corações falam, juntos, uma batida.

e lá fora, a noite se recolhe em silêncio.



do que a noite me traz.

Postado em: por Marcio Carvalho em

a noite me traz a sua ausência.

é no escuro que sinto a falta que o seu olhar me faz.

é no silêncio do sono alheio que escuto sua voz.

é o brilho da lua que me faz lembrar do seu sorriso.

é o vento noturno que me faz pensar em seu toque.

a noite me traz vc, em cada detalhe, em cada sinal.

Do cavalheirismo

Postado em: agosto 05, 2010 por Marcio Carvalho em

Por que eu sou o único cavalheiro que sobrou no mundo, hein?

E por que eu me sinto um idiota por ser assim???

Coisas que nos fazem pensar...